Descarbonização sem informação é apenas ambição
Por Virgiliu Obada – Sustainability & ESG da B. Prime
O Plano Nacional para a Renovação dos Edifícios (PNRE) e o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 (RNC2050) deixaram clara a direção estratégica para o parque edificado português. A questão, hoje, já não é saber para onde vamos, mas sim como medir com rigor o ponto de partida e o progresso ao longo do caminho.
O PNRE coloca o Sistema de Certificação Energética (SCE) no centro da estratégia pública para a transição energética do parque edificado português. Ainda assim, os próprios dados do plano revelam a fragilidade do ponto de partida: em 2023, a certificação energética abrangia apenas cerca de 30% do parque não residencial, num sistema suportado por cerca de 2.500 Peritos Qualificados.
O problema, no entanto, não é apenas de cobertura. É também metodológico.
O SCE continua a ser uma infraestrutura pública essencial, mas não responde, por si só, às novas exigências do mercado. Hoje, investidores, proprietários, financiadores e ocupantes procuram métricas mais granulares, comparáveis e auditáveis, capazes de traduzir a performance real dos ativos, o seu risco de transição e as necessidades futuras de investimento.
A classificação energética continua a ser relevante, mas já não basta para refletir, de forma suficiente, a performance real de um ativo, o seu risco de transição ou o volume de investimento necessário para assegurar conformidade e competitividade no médio prazo.
Embora a EPBD ainda não tenha sido formalmente transposta para a legislação nacional, o mercado já começou a ajustar expectativas. Em processos de ocupação, investimento, due-diligence e reposicionamento de ativos, cresce a procura por credenciais ESG credíveis, evidência de alinhamento com metas de descarbonização e melhores padrões de conforto, qualidade do ar interior e iluminação.
Em paralelo, proprietários e investidores enfrentam uma pressão crescente para planear o financiamento de intervenções de melhoria e descarbonização, assegurar alinhamento com os critérios da Taxonomia da União Europeia e responder a novas exigências regulamentares. Em muitos casos, este esforço recai sobre edifícios que não apresentam apenas défices de desempenho, mas também carências profundas ao nível da informação disponível, consistente e organizada.
O parque edificado português está longe de partir de uma posição confortável. Cerca de dois terços dos edifícios são anteriores a 1990, ou seja, foram concebidos antes da consolidação dos requisitos legais de eficiência energética e qualidade do ar interior. Isto não significa automaticamente fraco desempenho ESG, até porque muitos ativos foram sendo renovados, adaptados e tecnicamente melhorados ao longo do tempo.
O problema é outro: grande parte dessas intervenções nunca gerou um rasto documental completo, coerente e atualizado. O resultado é um parque edificado em que a realidade física do imóvel nem sempre coincide com a sua realidade documental, com telas finais desatualizadas, registos técnicos incompletos, equipamentos entretanto substituídos e soluções improvisadas para responder a necessidades imediatas ou a calendários de execução apertados.
É precisamente neste ponto que certificações voluntárias e metodologias complementares, como BREEAM e LEED, ganham relevância. Mais do que um selo, funcionam cada vez mais como instrumentos de leitura técnica, estruturada e auditável da performance dos ativos, ajudando a criar uma base mais sólida para avaliar energia, carbono, operação, conforto e o desvio face às metas futuras. Não pretendem substituir o sistema de certificação energética, mas complementá-lo com indicadores noutras dimensões críticas, como economia circular, saúde e bem-estar, mobilidade e qualidade do ambiente interior.
Não se pode melhorar o que não se mede e para cumprir os planos de renovação e descarbonização do edificado é essencial tomar decisões estratégicas com base em informação concreta que represente com rigor o ponto de partida
A informação tornou-se um dos ativos mais valiosos num contexto de adoção generalizada de sistemas de inteligência artificial e de processos de decisão cada vez mais automatizados. Em articulação com outras tecnologias emergentes, estas ferramentas podem acelerar de forma significativa a transição do setor imobiliário. Mas o seu valor real continua dependente de uma condição essencial: informação de qualidade, recolhida no terreno, interpretada com rigor e organizada por profissionais com conhecimento técnico e sensibilidade construtiva e arquitetónica.
Num contexto em que a exigência aumenta em todas as frentes, os prazos encurtam e o custo de decidir mal cresce, a qualidade da informação deixa de ser apenas um suporte técnico para passar a ser um fator crítico de desempenho.
E você? Sabe realmente em que ponto está o seu portfólio?
*PNRE – Plano Nacional de Renovação de Edifícios
*SCE – Sistema de certificação energética



